Mostrar mensagens com a etiqueta andorinha. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta andorinha. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, junho 25, 2013

Andorinhas na Sé


Hoje não sei se foi um bom dia ou não. Uma estranha embriaguez tomou conta de mim. Sinto o calor de um verão indeciso que me atravessa a alma. No entanto, por muito poético que possa parecer o apelo da alma, hoje não é um dia de profundas reflexões, como disse, sinto-me embriagado. Atravessei a cidade à hora de ponta numa carruagem de metro estranhamente vazia com uma revista na mão e dei por mim a ler parágrafos vãos, e agora, nem me consigo lembrar sobre o que falavam. Não devia ser nada de interessante certamente. Perdi o meu fio de pensamento ao sair na estação do Rossio, voou pelos céus da Praça da Figueira. 
Meti à chave à porta em casa e respirei fundo. Tinha chegado a casa. E a casa, inundada de flores e música francesa, transportou-me para o mundo que eu ansiei todo o dia. Não sabia que era isso que eu desejava, mas ao respirar o ar da Sé percebi de imediato. Debrucei-me na janela e chamei o Tiago para correr até mim. Tinha de partilhar com ele as andorinhas nas traseiras da Sé. Eram dezenas e eu nunca me tinha apercebido da trajectória que descreviam nos céus.E que felizes são elas a morar neste recanto de Lisboa. E por minutos, fiquei a olhar para elas, neste final de tarde inesperadamente nostálgico, como se toda a minha vida tivesse parado para admirar as andorinhas. Mas não. E o vôo das andorinhas, misturado com a história  dos azulejos circundantes, as torres da Sé Catedral e a música francesa a ecoar na sala de estar, tornaram o meu final de tarde leve, sereno e apaziguador. 

Hoje, durmo com as andorinhas. 



quinta-feira, abril 19, 2012

"First Days Of Spring"



"Era mais um daqueles dias em que o cansaço se apoderara do meu corpo e tudo o que ele pedia era um banho quente de imersão e um chá quente a acompanhar. Um chá que lembrasse o tempo frio do Inverno que terminara, cuja passagem havia sido incólume, imperceptível. Tomei esse chá de mel e limão como a minha derradeira hipótese de me despedir condignamente dos dias cinzentos, entrelaçando com força os dedos das mãos engelhadas à volta da chávena. Os meus joelhos começaram a enregelar por estarem acima do nível da água fumegante e precisei encostar a chávena para atenuar o frio do ar que percorria aquela divisão da casa. Não podia chamar a Regina ou a Luísa para ligar o aquecimento central porque tinham saído até ao mercado para comprar flores frescas para as jarras da sala, nem tão pouco o Óscar, tão embrenhado há semanas na organização da festa para celebrar a chegada das andorinhas. Subitamente, contrariando todas as expectativas para aquele pesado dia, por entre os gigantescos blocos de cimento escuro colados na atmosfera, escapou-se um tímido raio de sol, logo seguido de outro e mais outro, que sem pedir licença atravessaram a vidraça e se instalaram nos azulejos baços do século XVIII que rodeavam a banheira. Senti a presença do Noé, que chegou a casa com a ligeireza de sempre. Quando ele chegava era como se viesse acompanhado de uma orquestra que, delicadamente, enchia a casa com aquela sensação de leveza primaveril e que nos permitia ouvir o desabrochar das flores. E os meus joelhos aqueceram com os raios de sol que ao bater neles, os transformaram em arco-íris sobre a minha pele. Aproveitei a música que entrara com o Noé para terminar o banho que me acabara de revigorar para o resto do dia. Um dia que, a partir desse momento, entrava em contagem decrescente para a chegada da Primavera. O Óscar não ia querer que o Mr. D. chegasse ao seu banquete sem a sua andorinha e para isso era necessário escoar o peso de mais de quatro estações pelo ralo abaixo. Para todos os efeitos, a água já estava suja e fria. E era Primavera. E era impreterível que não houvesse uma nova Primavera sem andorinhas no beiral do seu Palácio"


For I'm still here hoping that one day you may come back