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quinta-feira, janeiro 12, 2012

This is not a new year's resolution:

Sinceramente, estou-me pouco importando para a crise no país, não me tem tirado o sono e prefiro mesmo nem ver os telejornais a espalhar sangue gratuitamente. Esta não é altura para lirismos. Esta não é altura para os poetas da vida. Esfregam-nos na cara uma realidade dura onde não sobra lugar para devaneios ou divagações filosóficas. Há-que entrar em estágio e rapidamente meter mãos à obra - "Fazer Acontecer". É todo um conceito cheio de boas intenções, quase sempre goradas. Contra mim falo, que nem consigo manter o meu quarto arrumado.
Cliché, que se lixe com "F" grande. SÊ A MUDANÇA QUE QUERES VER NO MUNDO. Não vais estar rodeado de príncipes e princesas se não fores um(a). "Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes" - e dizia eu que não havia lugar para poesias, já me sinto um marginal. 
Não consigo conceber a entrega total das nossas vidas a alguma entidade superior ou ao mero fado que está escrito nos pergaminhos ou num qualquer Universo. Eu quero as coisas e não gosto da ideia de que só as tenho por vontade divina. Ou as tens por trabalho ou por sorte. Infelizmente a segunda não me tem acompanhado nos últimos dias, mas a primeira depende unicamente de mim. 
E repito, isto não é uma resolução de ano novo.
Haja saúde. Amén.


© Frank Lukasseck/Corbis

segunda-feira, junho 08, 2009

Estrela da Tarde


Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia

Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram

Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram

Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto

Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!




José Carlos Ary dos Santos



Fotografia de Guido Cozzi

segunda-feira, janeiro 19, 2009

Sábado, 18 de Maio de 1996.


Sim, eu um dia já fui um grande vulto da literatura portuguesa. Nos tempos em que todos os meus escritos eram publicados religiosamente aos Sábados no Jornal da Madeira. Nos tempos em que as rimas eram mais simples e mais genuínas. Nos tempos em que jogávamos à macaca e à "apilhagem" no recreio. Nos tempos em que tive uma professora que me incutiu tantos valores, até hoje apreciados. Nos tempos em que usava óculos, roupas escolhidas pela mamã e calças acima do umbigo e mesmo assim conseguia pertencer à "malta fixe". Nos tempos em que detínhamos uma ingenuidade deliciosa. Nos tempos em que era feliz sem perceber. Hoje sou feliz, mas já me apercebo quando o sou.

"Passeio na selva"

“Uma vez, um amigo nosso,
Convidou-nos nas férias do verão.
Fomos todos para África,
Num grande avião.

Depois de chegarmos,
Perguntámos com curiosidade:
- Podemos dar m passeio na selva?
Estamos fartos da cidade!

- Claro, amanhã vamos lá.
Mas agora vamos jantar.
Entrem todos para o jipe,
Mas cuidado, vou acelerar!

No dia seguinte,
Fomos passear.
E pela selva fora,
começámos a caminhar.

Parámos num grande lago,
que estava numa clareira.
Ao lado tinha uma quinta,
que fazia uma grande lixeira.

Chamámos o dono da quinta,
e perguntámos o que estava a fazer.
- Nunca vimos sujar a selva,
com todos esse prazer!

O homem ficou calado,
a ouvir este sermão.
E ficou embasbacado,
ao ver que tínhamos razão.

Todos nós ajudámos,
a limpar a lixeira.
E o homem aprendeu a lição
de nunca mais sujar a clareira.

Mais tarde acabaram as férias,
com grande satisfação.
- Adorámos o passeio na selva,
foi uma grande emoção!”

P.S. – Tema: Poluição; Grupo: Safari;
Pedro, Cátia; Rita, Bruno, Andreia.

terça-feira, janeiro 22, 2008

Poesia, precisa-se.


"O poema não tem mais que o som do seu sentido, a letra p não é a primeira letra da palavra poema, o poema é esculpido de sentidos e essa é a sua forma, poema não se lê poema, lê-se pão ou flor, lê-se erva fresca e os teus lábios, lê-se sorriso estendido em mil árvores ou céu de punhais, ameaça, lê-se medo e procura de cegos, lê-se mão de criança ou tu, mãe, que dormes e me fizeste nascer de ti para ser palavras que não se escrevem, lê-se país e mar e céu esquecido e memória, lê-se silêncio, sim, tantas vezes, poema lê-se silêncio, lugar que não se diz e que significa, silêncio do teu olhar de doce menina, silêncio ao domingo entre as conversas silêncio depois de um beijo ou de uma flor desmedida, silêncio de ti, pai, que morreste em tudo para só existires nesse poema calado, quem o pode negar?, que escreves sempre e sempre, em segredo, dentro de mim e dentro de todos os que te sofrem. O poema não é esta caneta de tinta preta, não é esta voz, a letra p não é a primeira letra da palavra poema, o poema é quando eu podia dormir até tarde nas férias do verão e o sol entrava pela janela, o poema é onde eu fui feliz e onde eu morri tanto, o poema é quando eu não conhecia a palavra poema, quando eu não conhecia a letra p e comia torradas feitas no lume da cozinha do quintal, o poema é aqui, quando levanto o olhar do papel e deixo as minhas mãos tocarem-te, quando sei, sem rimas e sem metáforas, que te amo, o poema será quando as crianças os pássaros se rebelarem e, até lá, irá sendo sempre e tudo. o poema sabe, o poema conhece-se e, a si próprio, nunca se chama poema, a si próprio, nunca se escreve com p, o poema dentro de si é perfume e é fumo, é um menino que corre num pomar para abraçar o seu pai, é a exaustão e a liberdade sentida, é tudo o que quero aprender se o que quero aprender é tudo, é o teu olhar e o que imagino dele, é solidão e arrependimento, não são bibliotecas a arder de versos contados porque isso são bibliotecas bibliotecas a arder de versos contados e não é o poema, não é a raiz de uma palavra que julgamos conhecer porque só podemos conhecer o que possuímos e não possuímos nada, não é um torrão de terra a cantar hinos e a estender muralhas entre os versos e o mundo, o poema não é a palavra poema porque a palavra poema é uma palavra, o poema é a carne salgada por dentro, é um olhar perdido na noite sobre os telhados na hora em que todos dormem, é a última lembrança de um afogado, é um pesadelo, uma angústia, esperança. O poema não tem estrofes, tem corpo, o poema não tem versos, tem sangue, o poema não se escreve com letras, escreve-se com grãos de areia e beijos, pétalas e momentos, gritos e incertezas, a letra p não é a primeira letra da palavra poema, a palavra poema existe para não ser escrita como eu existo para não ser escrito, para não ser entendido, nem sequer por mim próprio, ainda que o meu sentido esteja em todos os lugares onde sou, o poema sou eu, as minhas mãos nos teus cabelos, o poema é o meu rosto, que não vejo, e que existe porque me olhas, o poema é o teu rosto, eu, eu não sei escrever a palavra poema, eu, eu só sei escrever o seu sentido."



(obrigado por me teres apresentado esta pérola)







José Luís Peixoto in "Criança em Ruínas"