Uma vez escrevi sobre os dentes do siso. Hoje volto a falar deles, não que mereçam grande consideração da minha parte, mas porque apetecia-me dizer-lhes umas coisinhas, especialmente ao meu mais novo. Portanto cá vai:
"Não sei que mal vos fiz para resolverem atormentar-me um a um. Se aparecessem todos ao mesmo tempo, sempre seria mais giro, ao menos andava com boca de hipopótamo com problemas dentários apenas uma vez na vida, limitando-me a comer sopa por uma palhinha durante esse período. Mas não, vêm sempre sozinhos, um de cada vez só para imporem a sua presença na minha arcádia dentária. Já não bastavam os primeiros dois que me entortaram os dentes, agora aparece-me novamente este terceiro, que já me deixou uma vez incapacitado de mexer o maxilar durante mais de uma semana, mas que pelos vistos resolveu romper-me a gengiva com uma lentidão lancinante, como se dissesse "Cucu, aqui vem mais dente", quando este já não era bem-vindo. É duro quando o nosso corpo está contra nós e acho extremamente desagradável o mau timing que escolhem para despertarem erupções nas minhas gengivas.
É portanto com consternação e alguma comichão atrás do pescoço que me despeço, pedindo desculpas desde já por todas as vezes que irei desejar arrancar-vos com um alicate".

Fotografia de Paul Souders, comentário do Hipopótamo.