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quinta-feira, novembro 20, 2014

Dia 11 - Varanasi, a cidade que nunca dorme

Depois de uma noite absolutamente mágica em Varanasi acordámos às 5h da manhã para mais uma experiência completamente surreal, um passeio de uma hora num barco no rio Ganges ao nascer do sol. Eu que odeio entrar todos os dias às 7h no trabalho dou por mim a acordar ainda mais cedo nas férias. É o meu karma, e se há lugar no mundo onde o karma não falha é aqui. Diz-se que Nova Iorque é a cidade que nunca dorme, mas quem disse isso nunca deve ter vindo a Varanasi certamente. Andar na rua às 5h30 aqui é o mesmo que andar na Rua Augusta às 16h. As pessoas estão já embrenhadas nas suas vidas diárias e os turistas estão acordados para aproveitar a maravilha que é o nascer do dia nesta cidade. Na verdade acho que há pessoas nas ruas porque muitas delas não têm sequer sítio para dormir. A pobreza é imensa mas isso parece não os revoltar, principalmente nesta cidade, a mais sagrada da Índia, para a qual se deslocam milhares de peregrinos todos os dias em busca da benção do rio, uma entidade elevada a Deus. Ainda havia muitos vestígios da festa da noite anterior pelos ghats (escadarias que dão para o rio) e pelas ruelas estreitas e labirínticas da cidade - muito mais estreitas e labirínticas que qualquer Alfama da vida - normalmente cheias de pessoas, motas, cabras, vacas e cães e os seus respectivos dejectos em quantidades absurdas. De falar em bicharada, na noite anterior perto do hostel ouvimos uns barulhos diferentes a vir de um canto escuro, uma cadela tinha acabado de dar à luz 5 lindos cachorrinhos. Chegádos a uma das ghats, alugámos um barco para o passeio matinal e ver a cidade a partir do rio é algo fantástico. A essa hora já há dezenas, arrisco dizer centenas de pessoas a cumprir rituais, seja meditação, banhos no Ganges ou orações sempre muito barulhentas com música e sinos a tocar ininterruptamente. Pelo meio o Ruben pediu ao rapaz, que não devia ter mais de 12 anos, para remar o barco, coisa que aconteceu de forma trágico-hilariante, aparentemente não é tão fácil como parece.




















Terminado o passeio fomos tomar pequeno almoço a um restaurante onde já tínhamos jantado ontem, que tem as paredes forradas com folhas escritas e desenhadas por clientes de toda a parte do mundo, inclusivamente por portugueses e no qual o dono se senta ao nosso lado a explicar todo o menu com um pormenor e uma paixão que me fez sentir que estava a jantar na sua própria casa, e depois fomos buscar as bolsas para mudar de sítio porque o Ruben achava que tinha encontrado um sítio melhor. O meu problema durante este dia é que comecei a ter os primeiros sintomas de doença, dores de cabeça, barriga revolta, garganta inflamada e um cansaço físico imenso, ou seja, comecei a drogar-me como gente grande, com medicamentos e não com as drogas que eles tentam vender na rua de forma muito menos discreta que na baixa lisboeta. 

Resolvemos seguir uma sugestão do tripadvisor, número 1 em Varanasi, e fomos até ao Yoga Education Training Center marcar umas coisitas para o dia de amanhã. 

O resto da tarde foi passado a ritmo de lesma e com poucas palavras da minha parte porque essa era a única forma de eu conseguir fazer alguma coisa. Fomos passear pelas ghats até encontrar um crematório. Eu julgava que cremavam as pessoas dentro de uma espécie de forno, mas não, eles embrulham o morto, rodeiam-no de lenha e é queimado ali à frente de toda a família e de quem estiver a passar nesse momento. Talvez por estar dopado ou por já estar menos susceptível às disparidades do meu mundo para este, não me chocou tanto quanto pensaria. Para todos os efeitos tentei evitar o fumo que saia das labaredas, julgo que se tivesse cheirado o cheiro de carne humana em combustão ter-me-ia feito muita confusão ao estômago. Mas para eles parece tudo muito natural, e é. Aliás, é um privilégio para qualquer hindu terminar a sua vida nesta cidade, dai haver tantos peregrinos que quando sentem a sua vida a chegar ao fim vêm para Varanasi à espera do último suspiro. 













À noite guardámos lugar numa escadaria de uma das ghats principais para assistir à cerimónia que acontece todas as noites junto ao rio em mais do que uma ghat em simultâneo e que atrai milhares de pessoas. Fazendo um paralelismo com a religião católica, penso que se pode assumir que a cerimónia dos hindus é uma espécie de missa, mas com muita música, sinetas, barulho, flores e cores. É muito bonito e é incrível imaginar que eles cumprem aquele ritual todos as noites, dia após dia. 











Entretanto, ao almoço tínhamos encontrado um restaurante junto à ghat onde assistimos à cerimónia, um último andar com vista para o rio e para essa mesma ghat que é o melhor restaurante que já experimentei nesta viagem, desde o menu que é bastante variado, ao espaço que é o mais limpo onde já comi, à decoração que é étnica e faz-me lembrar um pouco de praia, aos empregados muito simpáticos e solícitos, à vista que permite apreciar Varanasi a acontecer e por algum motivo está quase sempre vazio apesar de até ser o restaurante número 1 segundo o tripadvisor, facto que desconhecíamos quando o encontrámos. 





Foi um dia de apatia que permitiu, em silêncio, contemplar a vida caótica da cidade. Parece um desenho de "Onde Está o Wally", em que cada personagem parece contar uma história diferente. 

segunda-feira, novembro 03, 2014

Dia 6 - O Adeus a Agra, Sikandra e Mathura

Hoje o dia começou bem cedo. O despertar foi às 5h já que às 5h45 tínhamos um condutor de táxi à nossa espera  para nos levar até ao tão aguardado Taj Mahal. Chegámos à entrada do Taj Mahal e já havia uma fila enorme na bilheteira, felizmente tínhamos comprado o bilhete ontem no Agra Forte e tivemos apenas de nos posicionar na fila. Fomos logo dos primeiros, e uns 3, 4 minutos depois a fila já tinha um tamanho infindável. Existem 4 filas, duas para homens, 2 para mulheres, 2 para turistas, 2 para indianos. Em todo o lado se sente a diferença das castas, é um pouco agoniante sentir que nós somos considerados imediatamente um povo superior ao deles, mas o facto é que isso parece não os afectar, já que nos respeitam imenso e não demonstram revolta com isso. Mas é tão desconfortável sentir isso. A entrada no Taj Mahal requer o cumprimento de uma série de regras, e para meu infortúnio, e do Rúben que teve de esperar por mim, eu não cumpri uma delas, já que levava o braço extensível da GoPro que pelos vistos é proibido. Mandaram-me sair para ir a um sítio com cacifos onde podia deixá-lo. Estava uma fila gigantesca, portanto meti-me por um jardim dentro e apesar de haver indianos em toda a parte a toda a hora, tentei esconder o braço da máquina no meio do jardim e voltei a correr para o Taj. Eu e a minha mochila tivemos de voltar a passar no raio-X e à minha frente estava um rapaz que teve o mesmo problema que eu com o mesmo acessório. Provavelmente acharam que podíamos começar à paulada com ele, sei lá. Lá entrei e comecei a visita. Foi com um friozinho na barriga que atravessei a porta de acesso aos jardins que antecedem o Taj Mahal. Depois de pormos os olhos nele é difícil conseguir desviar o olhar para qualquer outro lugar. É uma sensação quase familiar, aquela de entrar num sítio que estamos habituados a ver na televisão e nos livros desde miúdos, apesar de estar num contexto tão distante do nosso contexto ocidental. O nascer do sol no meio da neblina tão característica torna o momento ainda mais inesquecível, a geometria, o detalhe, a perfeição, tudo parece estar certo naquele lugar. Toda a gente fica doida a tirar fotografias, eu próprio, queria ter a certeza que teria uma boa fotografia naquele sítio maravilhoso e quase andava à pancada com o Rúben, e ele comigo, para tirarmos boas fotografias um ao outro. Acho que temos algumas jeitosas.
Curiosamente, e depois de já ter visto tanta coisa na Índia, não achei o interior tão espectacular como noutros monumentos funerários, mas o biombo com jalis de mármore bate qualquer outro. O que é mesmo avassalador é o monumento em si. É incrível.
Ao andar nos espaços circundantes uma rapariga ao ver-nos a tirar selfies perguntou se queríamos que nos tirasse uma fotografia em português. Soube tão bem ouvir a nossa língua, até agora só tinha acontecido no Forte Amber em Jaipur, mas não contava já que eles eram claramente indianos que vivem em Portugal, não tem a mesma piada. A rapariga estava com um rapaz, o namorado, julgo eu, que era o rapaz que estava na fila à minha frente com todos os acessórios da GoPro. Mundo pequenino este. Trocámos dois dedos de conversa e eles deram-nos o contacto do sítio onde vão ficar em Goa, em cima da praia, se correr tudo bem, seremos vizinhos de cabana lá e festejaremos o aniversário da Maria com sotaque português.

















Depois tive de voltar ao jardim, esperando que nenhum indiano tivesse feito xixi no arbusto onde escondi o braço extensível, eles mijam em todo o lado, daí um dos cheiros característicos das ruas indianas ser o de urina. Felizmente estava sequinho, debaixo de umas folhas que eu rezei para que não tivessem cobras.  Depois de ter visto ao longe a cabeça de uma cobra capelo a sair de um cesto ao som de uma flauta em Delhi, ontem dois putos andavam com cobras dentro de um cesto a mendigar e eu devo ter dado a entender que não estava a gostar da brincadeira, já que ele enfiou-me o cesto com a cobra pelo tuk-tuk adentro, mas eu não cedi e ainda assim poupei-lhe os dentinhos todos. No entanto não houve um poro da minha pele que não se tivesse arrepiado. Depois lembrei-me do Tiago e pensei que a esta hora o miúdo estaria a ser lançado ao rio Ganges caso lhe tivesse feito o mesmo que fez a mim.
Enfim, depois voltámos ao hostel, tomámos o pequeno-almoço e o taxista pegou em nós e iniciou a jornada que teria de terminar no aeroporto de Delhi. Primeira paragem, Sikandra.
Sikandra é uma pequena vila nos arredores de Agra e é onde o imperador mongol Akbar está sepultado. Akbar era filho de Humayun, cujo túmulo já havíamos visitado em Delhi e que achei deslumbrante. Pois o do filho não fica nada atrás. O túmulo fica no centro e está rodeado de jardins murados, divididos em quatro através de sistemas de passagens elevadas, bosques desnivelados e canais. Nesses bosques vimos imensos antílopes negros que vivem nesses bosques circundantes e um ou outro macaco, mas esses é normal andarem em todo o lado. Fiquei apaixonadíssimo com os mosaicos das fachadas, com cores e padrões que eu achei maravilhosos.













Mais à frente o nosso taxista/guia parou em Mathura, um sítio que tínhamos ponderado passar mas que tínhamos desistido da ideia entretanto. É uma cidade conhecida por ser o berço do Deus Krishna e o taxista disse-nos que para entrar no templo hindu tínhamos de deixar as câmaras no carro senão não entrávamos. Eu, desconfiadinho como sou, fiquei  mortinho para que a visita acabasse porque só pensava que tinha dado o iphone a um homem que não conhecia de lado nenhum e ele se quisesse ia-se embora com ele e com as malas. Mas mais uma vez, pelo  6º dia consecutivo (todos, portanto) o universo provou-me que devo confiar mais nas pessoas, todos os dias a minha confiança nas pessoas indianas foi posta à prova das mais variadas formas e todos eles mostraram merecer a minha confiança. Penso que esta ansiedade é normal para nós ocidentais, que estamos cheios de vícios e preconceitos, já que os nossos novos amigos portugueses do Taj Mahal e um casal francês no hostel referiram sentir o mesmo. A Índia a ensinar coisas ao Pedrinho. O Rúben bem me perguntava porque é que eu parecia não estar a gostar do templo, não lhe quis dizer que estava apreensivo por termos confiado tudo o que tínhamos à excepção do passaporte e dos cartões que trazemos sempre connosco a um homem completamente desconhecido e eu disse-lhe que me sentia cansado, mas ele vai acabar por ler isto e perceber que não era esse o motivo. De qualquer modo, e correndo o risco de irritar os Deuses hindus, não achei piada ao templo. De espaço de meditação não tinha nada, toda a gente falava alto, havia música indiana aos berros, enfim, é a religião mais divertida que conheci até hoje, porque em vez de missas, silêncios e sofrimentos, eles parecem estar sempre em modos de arraial. Eu já ia arder no inferno  cristão, agora vou arder no hindu também.









Ainda antes de Delhi parámos junto à estrada para almoçar no sítio com menos condições que comemos até agora, mas a fome era tanta que quase lambi os dedos no final. Até agora está tudo bem, comidas picantes, algum mal estar quando é exagerado, mas nada de problemas alimentares.

Agora estou a empanturrar-me de chocolates no aeroporto de Delhi, preparando-me para uma bela noite nas cadeiras do aeroporto, já que ficaremos aqui das 18h (hora a que chegámos aqui depois de uma viagem de táxi que quase nos tirou a vida em 294 momentos diferentes) até às 10h55, hora do próximo vôo. Vamos embora da Índia. Por agora.