domingo, janeiro 27, 2013

No dia em que engoli o meu coração


Nunca algum coração batera tão depressa. De tanto bater, o sangue inundou aquela casa cujas paredes tinham ferrugem de um violento Inverno. A Natureza agreste tinha um deixado uma fina camada de gelo no soalho que agora se derretia com o sangue quente que brotava incessantemente do coração que eu aguentava nas mãos. Não tinha onde o pousar e por isso mantive-me agarrado a ele, pressionando-o contra o peito na esperança que não se esvaísse para o vazio daquela casa sem mobília. Desejei em silêncio que ele não parasse de bater. E o tempo passou, sem pressas, sem anseios e às badaladas do sino da igreja percebi que já era tarde demais para recuperar todo aquele vermelho do sangue usado e oxidado, derramado nas tábuas da sala de estar. Foi então que engoli o meu coração, de um só trago. Abri as janelas e uma aragem etérea apoderou-se do espaço vazio com sopros circulares que encheram a casa de folhas de ácer. Deixei-me ficar, deitado no chão sujo e olhando para o tecto maltratado apercebi-me do quão leve havia ficado naquele momento. As borboletas em rebuliço brotaram do meu estômago e um piano ecoou a mais sublime canção, deixando-me assim, 
leve, 
no dia em que engoli o meu coração. 


Berlim, 1 de Dezembro, 2012

2 comentários:

Caesarlivenloud caesarlivenloud disse...

wow. tens muito jeito para a escrita :)

Anónimo disse...

Borboletas no estômago
Coração a palpitar
Parece romantico.