domingo, dezembro 01, 2013

Howl



"Detesto quando chegam estas chuvas torrenciais e a luz se vai embora e tenho de procurar as velas para iluminar a casa. Vou buscar mais lenha para a lareira, que aquece e ilumina a sala onde passamos serões a ler livros e a escrever histórias. Lembras-te da última que escrevemos, sobre aquela viagem pelos quatro cantos do mundo? Lembrei-me dela agora mesmo e dei por mim a sonhar acordada. Decidi que quando chegares a casa vamos sentar-nos junto à lareira e planear essa viagem para nós. Já tenho o papel e as canetas preparadas. Está mais do que na altura de a fazermos. Estou farta desta vida, fechada entre quatro paredes, descascando batatas, cenouras e cebolas o dia todo, entre sopas e cozinhados. Vamos aproveitar agora, enquanto não temos filhos e as pernas não nos traem. 

Já devias estar em casa a esta hora. Talvez te tenhas atrasado no trânsito da cidade com esta chuva toda. Ou se calhar fecharam alguma estrada no caminho para casa, não seria a primeira vez. Acabei por ficar cansada, fui dormir, aquece o jantar quando chegares, deixei-te escrito num bilhete para que o lesses quando chegasses. Não te ouvi chegar.




Não chegaste mais nesse dia, nem no outro, nem no que se seguiu. Sei que passavas aqui perto, senti o teu cheiro mais do que uma vez. Na verdade, sentia-o cada vez mais forte de dia para dia. Entrava pelo meu nariz violentamente e eu corria logo para a rua a ver se te encontrava. Gritei o teu nome no silêncio da noite tantas vezes e tu parecias esconder-te de mim.  Lembras-te do medo que eu tinha em sair de casa à noite? O vento nas árvores e os sons dos animais nocturnos gelavam-me até aos ossos, mas a tua ausência fazia esquecer-me de todos esse receios e eu saía na escuridão com o coração aos saltos por te saber perto. 

Passaram-se anos e tu não voltaste. Mantive esta lareira acesa todo este tempo para que a casa estivesse quente quando chegasses e o jantar na mesa. Lembro-me que gostavas da comida acabada de sair do forno. Aos poucos comecei a desleixar-me. 

Deixei de receber visitas há muito e enterrei o telefone no jardim. Preferia estar sozinha, até porque a presença de pessoas me irritava. Não cortei mais o cabelo desde a tua partida, e agora ele dá-me pela cintura. Está ficando cinzento, da cor das cinzas na lareira onde queimei as histórias que escrevemos quando me amavas da mesma forma que eu te amava. A casa é agora está fria, vazia e as paredes estão negras. 

Desisti.

Desisti da casa, desisti dos sonhos, agora desfeitos. Desisti de ti. Pior de tudo, desisti de mim. Sobrevivo agora com os lobos. Afinal eles não são tão perigosos como eu pensava. Só atacamos quando nos intimidam ou quando temos fome. E numa noite em que eu tive fome, encontrei-te e mordi-te. E só depois percebi que eras tu. E percebi que éramos iguais. Caçadores imorais. Não sei se a culpa foi tua ou minha. Tínhamos chegado a um ponto em que era impossível voltar atrás e num misto de raiva e vingança, acabei com a tua vida, tal como acabaste com a minha"


A man who's pure of heart and says his prayers by night may still become a wolf when the autumn moon is bright




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