quinta-feira, outubro 12, 2006

Baú de Recordações - 10 de Janeiro 2006


Não era mais um dia de chuva. Chovia. Mas era diferente. Reparem. Nos dias de chuva toda a gente anda aborrecida nas ruas. Os guarda-chuvas esbarram uns nos outros. É ver-nos a queixar para nós próprios de como são incomodativas e mal-educadas as outras pessoas que não desviam o guarda-chuva. E quando passamos debaixo de uma goteira que parece que foi posta ali mesmo para chatear. Isto para não falar dos carros. Sim. Os condutores devem se divertir imenso a passar por cima daqueles lagos que se formam na berma das estradas. E os autocarros nesses dias são para se evitar vivamente. Só o cheiro que fica de tanta gente transpirada ali dentro é digno da mais sentida náusea. É saltitar sobre as poças de água, não vá a água infiltrar-se nas entranhas do calçado. Tarde demais. Já estão encharcados os sapatos. Mas naquele dia era diferente. A chuva não aborreceu. As pessoas não incomodaram. O cheiro de suor não surgiu. Fui dar por mim a calcar propositadamente as maiores poças com que deparei. Não me afastei dos carros que teimosamente insistem em querer lavar os peões. Riem-se? Eu também. É verdade. Não é conformar-me que os dias chuvosos são negros e aborrecidos. É aceita-los como são. É compreende-los. E sabem que mais? Gostei. Deu-me uma sensação de liberdade. Aquela sensação de ter mais água dentro dos sapatos do que na própria rua divertiu-me. Para as pessoas não era mais que um pateta alegre. Mas alegre. É verdade. Os dias de chuva são cinzentos. Mas não me senti minimamente escurecido pelo estigma dos dias de chuva. Está tudo na forma se olha. Como se sente. Bela tarde aquela !

3 comentários:

Anónimo disse...

Gostei do teu texto. Eu, pessoalmente, sempre gostei muito de chuva. É claro que não dispenso uma boa tarde de sol passada com a areia mais fina, o gelado mais doce e a companhia mais apetitosa. Mas o aconhego que nos traz a chuva a bater nas janelas furiosamente como se tivesse a chamar a nossa atenção fascina.me. É certo que por vezes naqueles dias em que andamos na azáfama urbana, acabamos nós também por nos tornar numa gota de água.. molhados da cabeça aos pés com arrepios que adivinham uma constipação, falamos mal-humorados com os nossos botões, imaginando como seria estar naquele momento debaixo duma mantinha quente, com as chamas a crepitarem na fogueira a aconchegar os nossos pés nos pés daquela pessoa e a ouvir a suave melodia das gotinhas de água que tocam o vidro numa harmonia agradável com o crepitar do fogo. É tambem delicioso entrar num sítio confortável e beber uma chávena de chá ou de chocolate quente enquanto molhamos um scone em doce de maçã. É bom folhear as páginas amarelas dum livro antigo que estava na estante da nossa mãe e cujas letras berram histórias lindas sobre personagens encantadas. É ainda melhor brincar com os amigos que nem crianças, saltar propositadamente para as poças de água, sentir o cabelo a escorrer.. mas nessas alturas eu não sinto os arrepios, mas sim as gargalhadas deles que me aquecerão sempre o espirito.

Beijinhos em ti menino da chuva
*Sílvia - amante do vão das escadas

Sérgio Leal disse...

hmmmm já tive tarde chuvosas muito boas... para alem de depender como se ve depende muito com quem se passa :)

Tiago disse...

Os dias de chuva só são cinzentos se nós os fizermos cinzentos! Eu cá gosto que os meus dias de chuva sejam amarelos, verdes, azuis, laranjas, rosa, roxo, vermelho... e dias de chuva assim são ainda melhores que alguns dias de sol!